Filed Under » memórias Permalink » 12/16/2006: uma carta que nunca será mandada Olá, velho amigo Faz tempo que não te escrevo. Óbvio que penso em você, ter ido embora e me deixado para trás não mudou a amizade que sinto. Isso eu...
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Filed Under » memórias Permalink » 12/16/2006: uma carta que nunca será mandada Olá, velho amigo Faz tempo que não te escrevo. Óbvio que penso em você, ter ido embora e me deixado para trás não mudou a amizade que sinto. Isso eu expliquei já, em cartas que nunca serão mandadas, e em uma que foi mandada. Melhores amigos não dão em árvore. Ainda mais um assim, quase gêmeo meu. As coisas aqui vão bem, mas isso não significa que eu esteja bem. Na verdade estou péssima essa semana. Um pouco pelo trabalho, um muito pelas questões humanas que me cercam. Como é difícil viver em tribo, meu querido amigo. Talvez eu nem precise dizer isso: foi a dificuldade de conviver entre as pessoas que nos afastou. Não só você, é claro; afastou outros. Mas você faz falta. Em um dia como hoje, eu proporia a ti uma garrafa de vinho, chocolates e um fuminho, e falariamos coisas distantes e metafísicas, e depois de meio maço de cigarros eu me sentiria bem melhor, mesmo que fosse só uma anestesia temporária. Sinto falta de falar de metafísica. Eu não escolhi me afastar, mas fiquei com uma turma maravilhosa e que eu amo, mas falta metafísica. Falta filosofia e arte, falta aquela sensação de que eramos mais do que meros fulaninhos. Me sinto uma fulaninha essa noite. Uma qualquer, sem sentido, sem motivo, que deveria morrer para não ocupar espaço e gastar oxigênio. Minha amiga está tomando o mesmo rumo que você tomou. Meu amigo está imerso em auto piedade e nem um pouco disposto a sair de lá. O homem que eu amo não consegue enxergar o que é meu problema, não consegue ver que estou sofrendo porque eu preciso de mais, eu preciso viver e estou só sobrevivendo. E eu tenho medo de falar, porque ele faz o seu melhor e eu não quero cobrar dele nada nunca. Tenho sido agressiva de um jeito que fazia tempo eu não era. Tenho sido até cruel e choro fácil. Claro que a lua minguante não ajuda. Sempre me sensibilizo quando pago tributo. Mas independente disso, me sinto péssima. Sinto um imenso nojo do mundo, e vergonha de tudo. Sei lá, fazia muito tempo que não me sentia assim com tanta intensidade. Eu preciso tanto de você, meu amigo. Odeio quando meus amigos estão tão imersos em si mesmos que não me enxergam lutar. Ossos do ofício. Como era mesmo aquela horrível “profecia”? Meu coração nunca teria paz, eu seria sempre estrangeira. É irritante viver para o dia seguinte. Eu gosto de ter aspirações, mas desisti. Tudo que planejo falha, tudo que desejo firmemente foge de mim. Tudo. Até a paz. Dezembro difícil este, velho amigo. Espero que melhore. Sinceridade. POrque essa vida de merda já está dando no saco. até um dia, meu amigo. sinto falta de nossas conversas. QUeria acender um cigarro, mas não tenho nenhum. Triste isso. Até esse prazer me foi roubado, e por mim mesma. como sempre.
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